Vida após a morte e lembrança dos entes queridos
Nossos entes queridos falecidos podem nos visitar? O que diz o Espiritismo
Lembranças, laços familiares e o Dia de Finados segundo Allan Kardec
No Brasil, o Dia de Finados é uma ocasião em que muitas pessoas visitam cemitérios, levam flores, acendem velas ou fazem uma prece por quem já partiu. Outras preferem recordar seus pais, avós, companheiros e amigos em casa, em silêncio. Mas a saudade também aparece fora dessas datas, às vezes de repente, diante de uma fotografia ou de uma lembrança. Nessas horas, uma pergunta pode surgir: nossos entes queridos falecidos sabem que continuamos pensando neles?
Esse assunto também despertou o interesse de Allan Kardec. Em O Livro dos Espíritos, ele reuniu perguntas sobre a lembrança dos mortos e sobre sua possível presença nos cemitérios nos dias dedicados à memória dos que partiram.
Nossos entes queridos falecidos podem nos visitar?
O Espiritismo parte do entendimento de que a consciência e os sentimentos não desaparecem com a morte do corpo. Segundo a doutrina, a alma continua sua existência no mundo espiritual e conserva os vínculos afetivos que tiveram importância durante a vida terrena.
Na questão 488 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se os parentes e amigos que nos precederam na morte sentem por nós uma simpatia maior que a de espíritos desconhecidos. A resposta registrada é afirmativa e acrescenta que eles podem nos proteger dentro de suas possibilidades. Para o Espiritismo, portanto, a morte não rompe necessariamente os laços de verdadeiro afeto.
Isso não significa que nossos familiares falecidos permaneçam o tempo todo ao nosso lado, nem que uma sensação inesperada ou um acontecimento estranho prove que vieram nos visitar. A passagem de Kardec trata dos vínculos espirituais, não da certeza de uma aparição visível ou manifestação física.
O que o Dia de Finados tem de especial?
No Brasil, o Dia de Finados é celebrado em 2 de novembro e é feriado nacional. Na tradição católica, a data corresponde à comemoração dos Fiéis Defuntos, distinta do Dia de Todos os Santos, cuja data tradicional é 1º de novembro. Para muitas famílias, o dia é marcado por visitas aos túmulos e lembranças daqueles que morreram.
Kardec aborda uma questão relacionada na pergunta 321 de O Livro dos Espíritos. Ele pergunta se os espíritos se aproximam das pessoas que fazem preces diante de seus túmulos. Segundo a resposta registrada, os espíritos atendem ao chamado do pensamento nesse dia, assim como em qualquer outro. No entanto, eles se reuniriam em maior número porque também é maior o número de pessoas que se lembram de seus mortos. Cada espírito prestaria atenção sobretudo aos seus entes queridos, não à multidão de visitantes que não conhece.
Essa presença maior não seria resultado de algum poder especial do dia 2 de novembro. Na explicação espírita, o que importa é o pensamento das pessoas que dirigem suas lembranças a quem já partiu.
A mesma ideia pode se aplicar ao aniversário de falecimento, ao aniversário de nascimento ou a qualquer momento em que nos lembramos com carinho de alguém que já não está entre nós.
Uma comunicação espírita de 1860
O tema não aparece apenas em O Livro dos Espíritos. Em dezembro de 1860, a revista Revue Spirite publicou uma comunicação recebida durante uma reunião da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, realizada em 2 de novembro daquele ano. A mensagem, transmitida pela médium senhorita Huet, foi atribuída ao espírito do escritor Charles Nodier.
Quando lhe perguntaram se, naquela época, os espíritos iam aos cemitérios em maior número, a resposta foi que eles voltavam mais espontaneamente aos lugares onde estavam seus restos mortais, porque ali se concentravam os pensamentos e as preces dos vivos. Outra pergunta tratou dos falecidos cujos túmulos já não recebiam visitas. A resposta ressaltou o valor das preces dirigidas a todos os mortos, inclusive aos desconhecidos e esquecidos.
Esse registro é um documento histórico de uma comunicação espírita, não uma prova independente de que os espíritos realmente visitem cemitérios. Ainda assim, ele ajuda a compreender como os primeiros espíritas interpretavam a relação entre a memória dos vivos e aqueles que haviam morrido.
É necessário visitar o cemitério para nos sentirmos próximos de quem partiu?
Não necessariamente, se considerarmos a resposta à questão 323 de O Livro dos Espíritos. Kardec pergunta se visitar um túmulo proporciona ao espírito mais satisfação do que uma prece feita em casa. A resposta explica que a visita é uma maneira de expressar exteriormente a lembrança. Seu valor, porém, dependeria da sinceridade do sentimento, não do lugar.
Para quem continua vivo, o cemitério pode ter um significado muito pessoal. Levar flores, acender uma vela ou permanecer alguns minutos em silêncio pode ajudar a recordar uma pessoa querida. Mas quem mora longe, não pode se deslocar ou não tem um túmulo para visitar não precisa sentir que seu carinho ou sua lembrança valem menos.
O que nossas lembranças e preces significam para os falecidos?
Na questão 320 de O Livro dos Espíritos, a resposta afirma que ser lembrado pode aumentar a felicidade de um espírito que já se encontra bem e consolar outro que esteja sofrendo. Já O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XXVII, item 18, apresenta a prece como uma forma de apoio e compaixão aos espíritos que, segundo a doutrina, passam por dificuldades.
Não é preciso decorar palavras. Para algumas pessoas, é natural orar em silêncio; para outras, lembrar de uma conversa, agradecer por algo vivido junto ou desejar paz a quem partiu. Na visão espírita, a sinceridade da intenção importa mais do que a forma do gesto.
Também não convém esquecer aqueles que já não têm ninguém para visitar seus túmulos. A comunicação publicada na Revue Spirite, em 1860, sugere que a compaixão pode ir além da própria família e alcançar pessoas cujos nomes nem conhecemos.
O Dia de Finados pode ser uma oportunidade de fazer uma pausa e pensar nas pessoas que fizeram parte da nossa vida. Será que elas realmente percebem nossos pensamentos? Essa continua sendo uma questão de crença e investigação espiritual. Mas o valor de uma lembrança sincera não precisa depender de recebermos uma resposta.
Perguntas frequentes
Os familiares falecidos podem nos visitar apenas em novembro?
Segundo o Espiritismo, não. A questão 321 de O Livro dos Espíritos afirma que os espíritos atendem ao chamado do pensamento também nos outros dias. No Dia de Finados, eles se reuniriam em maior número porque mais pessoas se lembram de quem partiu.
Uma presença maior de espíritos significa mais aparições?
Não. A passagem de Kardec sobre a reunião dos espíritos não afirma que as aparições visíveis aumentem nem que um espírito precise se manifestar. Uma lembrança intensa ou uma sensação pessoal não constitui, por si só, prova de sua presença.
Preciso ir ao cemitério para que um ente querido saiba que me lembro dele?
Segundo a questão 323 de O Livro dos Espíritos, não. A visita ao túmulo expressa uma lembrança, mas o valor estaria na sinceridade do sentimento, não no lugar. Também é possível recordar essa pessoa ou fazer uma prece em casa.
Vale a pena fazer uma prece pelos falecidos de quem ninguém mais se lembra?
Na tradição espírita, sim. Uma comunicação publicada na Revue Spirite em 1860 ressalta o valor das preces pelos falecidos desconhecidos ou esquecidos. O Evangelho Segundo o Espiritismo apresenta a prece como um gesto de compaixão e auxílio.
Fontes e leituras recomendadas
- Allan Kardec, O Livro dos Espíritos: segunda parte, capítulo VI, questões 320 a 323 (lembrança dos mortos, comemoração dos falecidos e visitas aos túmulos); segunda parte, capítulo IX, questão 488 (parentes e amigos após a morte).
- Allan Kardec (dir.), Revue Spirite, dezembro de 1860: «Le jour des morts» («O Dia dos Mortos»), comunicação atribuída a Charles Nodier em 2 de novembro de 1860, recebida pela senhorita Huet. Texto original em francês.
- Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo: capítulo XXVII, item 18 (preces pelos mortos e pelos espíritos sofredores).